Artigo: Identidade Piauiense
IDENTIDADE PIAUIENSE E A CIA DANÇA LUZIA AMÉLIA
Por José de Arimatéa Nogueira Alves*
A presença da Cia de Dança Luzia Amélia, em Salvador, nos dias 15 e 16 de julho de 2008, ajuda a desmistificar os paradigmas do isolamento e do “centro – periferia”. Há uma linha de pensamento que associa “altas culturas” (projetos de qualidade etc) a metrópoles (grandes centros urbanos). Nesse “modelo” as produções culturais suburbanas, dos interiores, do sertão e das províncias (inclusive Estados pobres) ficariam na base de uma suposta pirâmide hierárquica. O grupo de Luzia Amélia está quebrando paradigma.
Em 14/jul, o jornal A Tarde concedeu uma página inteira a essa companhia piauiense no tradicional Caderno 2. As pessoas que desconheciam esse grupo, como eu (embora sendo piauiense), não ficaram decepcionadas com o que viram no Espaço Xisto Bahia, vinculado à Fundação Cultural da Bahia (Secretaria de cultura). Os presentes, suponho, perceberam a culminância de um trabalho elaborado com rigor, dedicação e expressividade estética.
O espetáculo SANGUE não é apenas um trabalho contemporâneo. É justo afirmar que se trata de um espetáculo com linguagem atualizada, ousado no sentido mais amplo, não porque os atores ficarem nus a certa altura (parte final). Digo mais, ousado porque resulta, em grande parte, da determinação de uma mulher, a coreógrafa e diretora, Luzia Amélia, uma amazona negra com mais de quinze anos no campo de batalha (a Cia completou treze anos). Ousado porque superou o desafio de formar, organizar e produzir um espetáculo com linguagem contemporânea. Ousado porque se trata de um grupo “da terra”, composto majoritariamente de mulheres; o único homem do elenco fez a sua parte com talento. Enfim, um grupo ousado porque fincou raízes em uma cidade sem tradição com a desafiadora linguagem contemporânea no campo da dança.
Ademais, poucas de dança no Brasil conseguiram completar sequer 10 anos de idade, feito superado pela Cia de Luzia Amélia. Enfim, esse grupo demonstra garra e determinação para superar os obstáculos de “matar um leão todo dia”, com o perdão pelo jargão, mas como ainda se fala muito.
Piauí e a poética de Da Costa e Silva
O Piauí é um Estado fronteiriço ao Maranhão, Tocantins, Bahia, Pernambuco e Ceará; tem uma bela capital (Teresina) com população próxima de meio milhão de habitantes. Também tem uma “pequena e notável” faixa de litorânea (64 km) conectada ao delta em que desemboca o Rio Parnaíba, onde se localiza a cidade de igual nome. São recantos aprazíveis e de rara beleza.
Em companhia da minha esposa (Maria Angélica) assisti a apresentação de SANGUE, em Salvador, no dia 15 de julho. Conforme declaração de Luzia Amélia ao jornal A Tarde, a coreografia foi “inspirada em livro homônimo do piauiense Da Costa e Silva” (Amarante, 1885 - RJ, 1950). Informo aos baianos que estamos falando do mais destacado poeta da lira piauiense, autor do hino do Estado (“Piauí, terra querida / Filho do sol do Equador …”). Nos anos 60, ainda domiciliado em Parnaíba, tomei conhecimento da obra e da vida desse poeta. Tenho em minha biblioteca, em Salvador, a antologia DA COSTA E SILVA – POESIAS COMPLETAS (INL/MEC, 1976). Nesse livro consta a mais completa resenha sobre a vida e obra desse poeta (Notícia sobre Da Costa e Silva), escrita pelo filho Alberto da Costa e Silva (paulista, membro da Academia Brasileira de Letras, da qual foi presidente por algum tempo).
A companhia que detém várias premiações, inclusive a Klaus Vianna de Dança (nacional, conquistada em 2007) também homenageia Possidônio Queiroz, músico autodidata e talentoso, nascido em Oeiras (1904 – 1996). Algumas das suas valsas foram registradas em CD recentemente editado com o apoio do Estado. Possidônio, além de músico, era um amante da cultura e do povo piauiense.
A coreografia de SANGUE denuncia, de forma direta, a sordidez da escravidão, o sofrimento corporal e espiritual dos escravos, a luta do povo negro pela dignidade.
Da Costa e Silva, ainda que inspirador da coreografia do SANGUE, na vida real e em sua obra poética jamais teve a pretensão de resgatar a luta abolicionista. O seu interesse e a sua inspiração também não tiveram o que poderíamos chamar de “cunho revolucionário”, o que não desmerece o trabalho do escritor, muito menos da companhia Luzia Amélia. A propósito, o soneto Cruzada Negra, da obra SANGUE, não faz nenhuma alusão à luta libertação ou à dignificação dos afrobrasileiro. Aliás, o poema de Da Costa e Silva, Canto à Raça, que não integra a citada obra, é uma glorificação épica aos lusos (“Argonautas do mar e dos céus…”), muito bem elaborado, por sinal. O poeta é um simbolista por excelência; daí as imagens da cultura greco-romana, também ibérica, a espiritualidade (católica e medieval); uma viagem onírica, ainda que poética, em torno do Ser e do Não Ser.
Convém reafirmar: postura do poeta em causa não diminuiu o seu talento poético, a qualidade da sua obra. Afinal, as academias e os campos da criação sempre estiveram abertos aos mais diversos pensamentos, escolas e inspirações. Ademais, Da Costa e Silva tinha forte ligação com a natureza, com a sua terra natal, inclusive como o Rio Parnaíba (“velho m / As barbas brancas alongando…”. A família, amor e solidão marcam profundamente a poética desse piauiense, considerado um precursor do modernismo, o que pode ser percebido no seu livro ZODÍACO. Não foi por acaso chamado de “poeta da saudade” (“Saudade! Olhar de minha mãe rezando / E o pranto lento deslizando em fio…”); dialogava com a morte (“Ó Morte, almejo os teus idílios..”), como era quase regra entre os simbolistas.
Identidade piauiense
Após a apresentação do espetáculo (dia 15 de julho/2008, em Salvador) a companhia dialogou com a platéia, atenta e curiosa em conhecer o grupo. A questão da “identidade”, já registrada na matéria publicada no jornal A Tarde, foi levantada mais uma vez pela coreógrafa e diretora, assim como por parte de algumas pessoas presentes. É claro que o tempo e a quantidade de pessoas não permitiram uma discussão minimamente esclarecedora dessa interessante questão. De qualquer forma, o foco da companhia é mesmo a dança, não exatamente antropologia. Após parabenizar Amélia e todo o grupo e beber um copo de cajuína, já na saída, prometi à Luzia Amélia que escreveria algo sobre “identidade piauiense”, afinal, muitos dos presentes demonstraram interesse por apreciação mais aprofundada sobre “identidade piauiense”.
De fato é possível desenhar um perfil identitário piauiense com base na geografia humana, na evolução histórica, na sociologia e na antropologia. Euclides da Cunha, Gilberto Freire foram mestres na utilização dessa metodologia.
Um pouco de história
A família da Casa da Torre (os Dias D”Ávila) foram os primeiros latifundiários a explorar o Piauí e a sua gente, partindo das imediações de Salvador (antigamente, Tatuapara). Atravessaram o Rio São Francisco, penetraram no Piauí e chegaram até o Maranhão, nos séculos XVII/XVIII, implantando fazendas de gado, escravizando índios ou os tornando vassalos; contam que os rebeldes que resistiam à corda tinham a garganta cortada. Nesse espaço e ambiente surgiram as primeiras povoações. A esses fazendeiros juntaram-se padres e prepostos da coroa portuguesa (corpo administrativo, militar etc). Os escravos africanos e afrobrasileiros, ainda que em menor número, integraram a parte sacrificada desse projeto colonial. Uma classe média e popular muito pobre, sem renda, vivia em condição de servidão e penúria enquanto uma dúzia de famílias detinha, direta ou indiretamente, 2/3 da riqueza e dos postos de poder. A partir da abolição (1888) e, mais aceleradamente, a partir da proclamação da república (1899) teve início uma lenta distensão e desconcentração sócio-econômica.
Caldo genético
O biótipo característico do povo piauiense é o de um mestiço. São milhares de mamelucos, caboclos, cunhas, cabras, afroindígenas, afrobrasileiros ou ainda uma mistura desses com descendentes de famílias oriundas da Europa (principalmente portugueses), árabes, judeus etc. Além da genética, considero relevante sob o ponto de vista cultural (embora pouco destacado) a raiz indígena piauiense, de um modo geral vinculada à família lingüística macro-jê.
Até meados do século XIX famílias inteiras de índios, subjugados, viviam como servos (“agregados”, nas fazendas), empregados (as) domésticos de todas as idades, quase escravos ou com precária remuneração. Era comum a prática da violência sexual por parte dos homens com maior poder econômico, contra as mulheres pobres. Inúmeras adolescentes pobres eram atraídas ou induzidas, até por seus familiares, a ingressar na prostituição, uma busca desesperada pela sobrevivência.
Isolamento e desenvolvimento
O “Piagui” viveu longo isolamento regional. Somente ao final de 1797 o Estado teve o seu primeiro governador titular (João de Amorim Pereira). O isolamento administrativo deu lugar ao isolamento geográfico, ao baixo dinamismo econômico, no século XIX. No começo do século XX Teresina era uma cidade modesta, menos dinâmica que Parnaíba, no Norte do Estado, Campina Grande (Pb), Sobral e Juazeiro (Ce) etc., Somente um século após a sua fundação (1852) a capital do Piauí começou a deter condições favoráveis ao desenvolvimento sócio-econômico. As transferências do governo federal foram (e continuam sendo) essenciais para o desenvolvimento local-regional (Bancos federais, SUDENE, Cia da Boa-Esperança, Universidade Federal etc). Estradas asfaltadas reduziram o distanciamento de Teresina com outros centros regionais e nacionais. Aeroportos também contribuiram, apesar do limitado número de linhas, até hoje. A produção agrícola, tradicionalmente limitada, passou a ter participação ampliada no PIB estadual em decorrência da diversificação, incorporação de tecnologias e incremento do consumo local/regional. Dentro de dois anos estará com a sua área de cerrado conectada à malha da ferrovia Transnordestina (em fase de construção).
Até os anos sessenta (século XX) muitos jovens deixavam o Piauí em busca de aprimoramento mais avança e de melhores oportunidades de trabalho; poucos retornavam à “terra querida”. Da Costa e Silva, além de poeta foi um graduado funcionário da receita federal, ocupou a função de delegado em SP, MG, RS e AM. Esse homem de alto cabedal intelectual e rara sensibilidade poética certamente teria integrado a Academia Brasileira de Letras se fosse natural do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Da Costa e Silva, vítima de preconceito teve o seu acesso à carreira de diplomata negado pelo Barão de Rio Branco sob a humilhante alegação de que “era um homem feio”; anos depois o seu filho Alberto (também poeta e ensaísta, membro da Academia Brasileira de Letras) ingressou no Instituto Rio Branco, onde fez carreira e aposentou-se.
O certo é que a maior parte dos piauienses talentosos, em diversas áreas, nascidos até a metade do século XX, só conseguiram reconhecimento fora do seu Estado natal. Dentre esses que foram e são muitos, cito os seguintes (sem desmerecer os demais): Evandro C. Lins e Silva (1912 – 2002, Procurador da República, Ministro do STF, Chefe da Casa Civil da Presidência e Ministro das Relações Exteriores etc), Carlos Castelo Branco (1920 – 1993; membro da ABL, coluna diária no JB/Rio, entre 1963/1993), Mário Faustino (1930 – 1962, jornalista, ensaísta, crítico literário, até hoje muito citado, fundou um caderno literário no JB/Rio), Torquato Neto (1944 – 1972, poeta e artista multimídia, membro da vanguarda movimento Tropicália etc), Assis Brasil (1932, educador e escritor com produção ampla e de grande qualidade), dentre outros.
A cada dia aumenta a quantidade de jovens que se aprimoram em variados campos, profissionalizam-se ou tornam-se empresários no Estado em que nasceram. As universidades públicas (estadual e federal) têm propiciado oportunidade de qualificação avançada (Especializações, Mestrado e PhD), seja em Teresina ou mediante a convênios e intercâmbios no Brasil e no exterior.
O Piauí em 2008
Há um quatro de século o Piauí tem crescido a taxas razoáveis, detém uma das melhores relações “universitários / população”, em termos de Brasil; o ensino Fundamental e Médio da capital tem sido avaliado pelo MEC (IDEB- Índice de Desempenho da Educação Básica) acima da média do Nordeste, superando até de uma capital do porte de Salvador.
A população do município de Teresina está próxima de 750 mil habitantes; é um centro de serviços médico-hospitalar destacado regionalmente; a construção civil expande-se fortemente, embora fortemente concentrada em habitações para a classe média e alta, de resto uma realidade brasileira. Com relação à riqueza cultural e natural, o Piauí está entre os três maiores estados com maior acervo de arte rupestre, autêntica memória pictórica nacional. O Parque Nacional das Sete Cidades (Norte), unidade mais antiga, localiza-se no Norte do Estado. No Sul do Piauí encontra-se o Museu do Homem Americano, localizado nas imediações da Serra da Capivara e do município de São Raimundo Nonato, Sul do Estado; considerado o maior museu aberto da América do Sul. Curiosamente, em plena capital, chamada de “Cidade Verde”, existe um interessante Parque Arqueológico de Árvores Fossilizadas. Apesar da temperatura medianamente alta boa parte do ano. Estado possui uma enorme reserva de águas subterrâneas de alta qualidade, é o maior produtor nacional de mel orgânico e de cajuína. Teresina é a capital brasileira com menor nível de violência urbana, fator favorável à melhoria da qualidade de vida.
Por fim, o delta do Parnaíba é um interessante espaço natural, apropriado para o desenvolvimento do turismo ecológico e cultural. É relevante observar que a cidade de Parnaíba (localizada à beira-rio e beira-mar), com pouco mais de 120 mil habitantes, é uma cidade bem urbanizada, com uma população jovem que tem a opção de cursar um ou mais dos trinta cursos oferecidos nas universidades públicas (federal e estadual) ou em fundações privadas.
Acredito que os piauienses de hoje estão menos “isolados” do que os da minha época de colegial (talvez continuem tão “saudosistas” quanto os da minha época). Curtem até a ida de uma judoca à olimpíada de Pequim (Sarah Menezes). Portanto, a visita da Companhia de Dança Luzia Amélia à Salvador tem um sentido simbólico, é mais um evento que ajudará a reduzir o “isolamento” regional desse vitorioso grupo de dançarinos, além de aumentar a auto-estima da colônia de baianos originários do delta, da Chapada do Corisco e do sertão piauiense.
Salvador, Bahia, julho/2008
* José de Arimatéa Nogueira Alves (62, piauiense, bel. em administração pública e funcionário aposentado em um banco federal)
txay@uol.com.br






Prezado Ari, imagino que você lembre do seu ex-colega Edelson, da UFBA. Há muito tento encontrá-lo para voltarmos a conversar. Outro dia o vi na TV, falando sobre uma organização que você dirige e há pouco tempo o vi acompanhado da esposa na Reitoria da UFBA. Você passou e dirigiu-se para o lado oposto ao que eu estava. Esperei-o para vê-lo após o espetáculo, mas você sumiu. Fiquei alegre em vê-lo. Hoje procurei no Google e vi o seu ótimo Blog , flando sobre as coisas do Piaui.
Abraços
Edelson
Fone 8869-3593
email edelson@ufba.br