SANGUE
Inventário de Histórias Negadas
Há um ano e meio a Cia. da coreógrafa Luzia Amélia trabalha na montagem de seu novo espetáculo, SANGUE, título inspirado em livro homônimo do poeta Da Costa e Silva, obra literária que demorou cem anos pra ser editada.
Iniciou-se com este projeto, intenso, demorado e tortuoso processo de criação de uma obra coreográfica. O livro tornou-se, assim, a chave que abriu todos os dias a sala de ensaio da Cia. A confecção coreográfica deu-se, de um lado, pela imersão na poesia simbolista de Da Costa e Silva, de outro, pela busca de movimentos escondidos dentro da própria genealogia dos intérpretes. A coreógrafa utilizou, além de sua própria experiência acumulada em 12 anos de Cia., um método de pesquisa cênica ligado ao Teatro Físico, adquirido num curso com Fernanda Branco, brasileira, radicada na Noruega. O processo empreendido gerou conjuntos individuais de movimentos, a que se chamou de núcleos. Na verdade, frases coreográficas com nuances próprias, ricas, surgidos das entranhas dos bailarinos.
Tempos depois, um ilustre compositor do Piauí foi ‘convidado’ a trazer suas composições (valsas), para o ensaio. Possidônio Queiroz, chegava sutilmente. Parecia saber que ali se dava delicado trabalho artesão, era preciso ir chegando devagar. A música do falecido artista se incorporou aos movimentos do elenco, tornando-se indissociável do processo. Um novo e intenso encontro se fez, dando dimensão outra ao que se estava pretendendo.
Em setembro de 2007, a FUNARTE concedeu à Cia. de Luzia Amélia o Prêmio Klauss Vianna de Dança 2007, sob patrocínio da Petrobrás, para custear a montagem.
Mas em Sangue tudo ganhava vida própria.
E se, num primeiro momento, a obra de dança dialoga com o livro, com o decorrer do processo, a Cia. percebeu que o espetáculo devia correr seu próprio curso, ainda que soluçando, feito as cantigas de águas claras do rio. Foi assim que o processo criativo desembocou na discussão acerca de identidade cultural do Piauí. O centro de interesse sofria ligeiro deslocamento etnosertanejo. Ou seja, a equipe saia em busca de elementos identitários da cultura e da história piauiense, a partir de sua própria história. Juntou-se aos elementos biográficos dos bailarinos, análises e teses de estudiosos locais que ousavam explicar a “piauiensidade”. Abria-se espaço para se explorar temas como colonização, papéis dos dominantes e dos dominados. A essa altura, a formação cultural do Piauí parecia, para todos os envolvidos na criação de Sangue, uma enorme colcha de retalhos repleta de rasgões. Mergulhou-se na solitária cultura do vaqueiro sertanejo, à cata de um porto seguro. O vaqueiro era um ícone que encerrava em si quase todas as respostas que se buscava.
Mas Sangue queria falar mais alto.
Saltou-se desse recorte colonial para uma compreensão mais abrangente do que é ser piauiense. O Piauí, mais do que um estado encravado no sertão do Brasil, apresentava-se como um estado de histórias negadas. Chegava-se ao íntimo da questão, tendo o corpo como protagonista. A história da colonização passava, invariavelmente pela dominação do corpo, do negro, do índio, do caboclo vaqueiro. Um corpo desapropriado, repatriado, cedido, marcado, marginalizado, coisificado, negado.
Em Sangue, o corpo pertence ao outro.
Mesmo com a linha de pesquisa definida, a Cia. continuava em intenso processo de descobertas, a cada dia novas possibilidades eram experimentadas, era preciso trocar de pele para o próximo ensaio. Alguns bailarinos não suportaram, era forte o clima de ebulição de novas idéias e conceitos, deixaram o trabalho e a cia., seguiram outros rumos.
Com Sangue quase pronto a Cia. começou a realizar ensaios-aberto só para convidados, jornalistas, artistas, acadêmicos, professores, pesquisadores que se revezaram em pequenas platéias onde se discutia questões identitárias pela ótica dos corpos que acabavam de dançar.
Sangue esteia nacionalmente em 15 de julho de 2008 em Salvador, no espaço Xisto Bahia.
Ficha Técnica:
Concepção/Direção: Luzia Amélia
Intérpretes: Antônia Luciana, Andréia Barreto, Drika Monteiro, Jean das Neves, Débora Radassi, Irene Gomes, Nayara Fabrícia, Samara Rocha.
Figurino: Luzia Amélia
Cenário: Cia. Luzia Amélia e Xico Fialho
Produção/Fotos: Jone Clay Macedo
Texto: Da Costa e Silva
Música: Possidônio Queiroz






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