Artigo: Sobre Quaisquer Mercados
Sobre quaisquer Mercados
Para abrir com chave de palco recorro a Nelson Rodrigues, pai do teatro moderno brasileiro, que vaticinou: “toda unanimidade é burra”. O mapa histórico da humanidade civilizável assegurou à posteridade variável que toda hegemonia sempre representará perigo extremo. Também essa mesma cartografia nos legou a arte como mola propulsora do mundo + reservado ao que caminhou entre a razão e a sensibilidade. A salvaguarda da humanidade foi a aliança da alma sensível com o sujeito cartesiano, refletindo os conflitos da inquietante e intrincada revolução social ocorrida do “ser para si” para o “ser em si”(Sartre).
Quando o assunto é aldeia global em que os mercados se confluem e misturam os limites, encontramos movimentos de corpos, mentes e “desesperos” ilustrando buscas e eventos despretensiosos, desprezíveis ou não. O mapa cênico piauiense, em que pese restritamente à dança, tem vingado bons efeitos e vinculado ao laborioso esforço o ouro negro prospectado de terras aparentemente inférteis. São resultados dos + mais diversos, uns para público austero, outros para o estéril e uns ainda ao público efusivo.
Do tradicional exercício variando para os modernos, pós e contemporâneos dança-se muito bem e os passaportes, carimbados em novas entradas e saídas, dão a bandeira do vigor com que as sapatilhas e linóleo brilham. Do homo piauiensis( primeiros passos) até a neo-dança/teatro(diversidade de corpos falantes e inteligíveis), os pé inchados(Portinari) refinaram a técnica e a estética da plástica em movimento. A partitura elaborada alargou a semântica da mímesis do conhecimento e repasse histórico, dando novo impulso à reserva de mercado.
Na esteira desse expressivo paradigma da dança piauiense se forma, entre muitas e boas obras, o Balé de Teresina. Dono de um grande sucesso emblemático, a “Dança do Calango”, que encontrou as mais distintas platéias, parecia não parir mais nada que o sobrepusesse. Uma obra não toma o espaço d’outra, apenas soma o repertório. A Diretora Artística e Coreógrafa, Luzia Amélia, não digo que tenha sofrido do estigma de uma obra só, mas esse fantasma persegue qualquer criador. Dando a mão à palmatória insurgiu outra matiz. “Mercado Central” que ora ocupa as pautas significativas do Grupo diz a que veio e não nega fogo ao teatro vivo.
O desenho dramatúrgico de “Mercado Central” é denso com margem a um expressionismo tenro e imberbe. De criatividade conceitual vagueia pela história da arte ilustrando pinceladas, para um bom tradutor de semiótica, que poderiam lembrar registros de Warhol, Oiticica e as primárias cores dos magos de 22.
Os figurinos, luzes e marcas se afunilam para um propósito direcionado que não perde a intuição, mas também não despreza a razão criativa. Momentos singulares são os do ciclo das bacias(definidos por mim como espelhos d’água) que desenham anseios em cotidianos lúdicos, como requer essa assertiva conceitual. O colorido das barracas de ambulantes(guarda-sóis) reproduzem cena de cinema dos anos 30/40(grandes musicais hollywoodianos de Ziegfield). O enlinhado de trajes e/ou andrajos à base de “espaguete” revela novelos cruzados nos labirintos das vidas comezinhas dos mercados.
A música de partitura formal aliada a da anatomia do corpo que baila é sentida e tem caminhado para a fuga das formas fugazes e marginais da dança/teatro contemporânea. De Niginski, Barichnikov a Colker, para trazer para terreno mais nosso, o expressado resultado é fruto elaborado de quem perdeu o excesso de pêlos e refinou manifestações antropológicas, antropofágicas, antroponovas leituras. Fora do maniqueísmo oficial, o que é mau(l) é de menor inscrição, já o que é “bonzinho” não representa o que é realmente bom. Porém, o laboratório de invenção de novas crias antropológico e filosoficamente será o lobo do próprio homem(Hobbes) e antropofagicamente, sem perder a filosofia lúdica, será responsável por absorver o espírito do guerreiro inimigo.
Maneco Nascimento
Ator e Radialista






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