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VII Bienal de Dança do Ceará

17 out

Cia. francesa que abriu a Bienal

Cia. francesa que abriu a Bienal

Citando Lya Luft, Clarice Lispector e Saramago, Paulo Linhares abriu oficialmente, como organizador, a VII Bienal de Dança do Ceará, falando para um Teatro José de Alencar super lotado. Além das cias. que se apresentaram naquele palco, uma tocante homenagem ao crítico e pesquisador Roberto Pereira, falecido em junho, marcou a noite.

Artigo: De Ponto a Ponto

13 mai

Por Luzia Amélia*

De Ponto a Ponto

Nós da Cia Luzia Amélia, resolvemos aqui em nossa Teresina, subverter a idéia de comemoração em torno do dia da dança, propondo para a cidade questões específicas do nosso fazer artístico. Fizemos uma performance itinerante e simultânea em várias paradas de ônibus e dentro de um ônibus que nos levou para a universidade federal. Invadimos a universidade, invadimos a biblioteca, queríamos com essa atitude chamar atenção para questões sérias como a implantação urgente de um curso superior de dança em Teresina, a necessidade de se pensar políticas publicas efetivas para a dança e cutucar os outros profissionais para a necessidade dos artistas bailarinos, coreógrafos refletirem e não apenas se deixarem levar por uma atividade meramente braçal, servindo para a maquiagem de eventos. Não somos apenas cenários, nossa atividade pode e deve gerar conhecimento.
A cada ponto de ônibus, um de nós entrava com figurinos improváveis. Ouvi um jovem falando que ia seguir até o final, mesmo saindo de seu caminho só para ver o que iria acontecer – um misto de alegria e ansiedade invadiu seus olhos. As pessoas dentro do ônibus, por sua vez, não sabiam o que fazer, ao mesmo tempo estavam, ainda que a contra gosto, participando ativamente da performance. Foi poético, emocionante, desconcertante. O motorista e o cobrador pareciam nossos companheiros de arte, nos olharam com uma cumplicidade, como se nos conhecessem, e dançaram também.
Na biblioteca central da universidade, parada final de nossa jornada, nos sentimos como corpos vindos de outras realidades, corpos proponentes e não marionetes, vivos, sujeitos do nosso processo. As reações foram as mais diversas, teve gente que dançou, tirou foto, riu baixinho, riu alto, se encolheu, silenciou… já quase no finalzinho um estudante bradou: “Isso é uma palhaçada! Eles não deveriam estar aqui, aqui não é o lugar deles”. Uma professora angustiada respondeu no mesmo tom: ”Isso é arte!”. E nós continuávamos ali imersos naquela aventura de dança, sentindo, suando, nos fazendo espaço e querendo espaço, em uma atitude deslocada de se dançar aonde se busca saber. Terminamos mais fortes e conscientes de nossa realidade artística, bailarinos, sertanejos, piauienses. E no nosso corpo, a pergunta: onde é mesmo o nosso lugar?

* diretora / coreógrafa da cia.

Artigo: Mercado do Boi no Teatro Central

28 abr

Por Chiquinho Pereira*

 

Uma junção de metáfora, pulos, contrações, formulações muito além da objetividade, mas que existe. E diante de todos nós do Teatro do Boi que pudemos ou não, ou nos recusamos a ir ver uma produção riquíssima em injunções e alusões sonoras, musicais. Beirando o dramático, ainda estou por ter uma leitura, mas faço desde agora um levantamento, senso comum sobre o pensamento daquilo que vi, tentarei relacionar com o atual em Teresina. Não é por que não compreenda, não é por que não saiba dançar, não é porque eu não conheça música ou que seja um aleijado para tudo que tem cor luz e forma, ou que ouça ou pense conhecer demais ou um pouquinho apenas, que ao menos não leve meus filhos ao teatro e amigos. Que meu mundinho não venha usufruir das coisas mais lindas que fizeram para mim, então este lugarzinho meu é lama cheia de depressão e loucura por dinheiro, conforto e outras taras. Mercado Central não pode ser tratado como fazem com as frutas inservíveis, não pode ser levado no caminhão que passa pela cidade, aos olhos dos que apenas dizem “olhar lá tanto tomate estragado, sendo levados aos porcos!”, e gente lá do lixão, os enrolados de espaguete, juntam a cidade. Rejeitos que são servido nos pratos, nas residências pobres, longe da “beleza”.

mercado-chiquinho

Acho que Mercado Central fala disto, da beleza e do não belo, não, nem do belo, nem do feio, mais muito mais e mais além… Um ruído, em minutos vastos serve às coreografias, os bailarinos por vários destes dançam… Uma pequena frase repetida, repetida… alcança núcleo dramático, sai do ruído para som do som para o ritmo, do ritmo pra a mensagem, em pequenas células… e foi isto que vi pequenas células de muita coisa, de muita coisa… O que meus sentidos foram tocados e agora estarão no lixo de minhas retinas, alimentando meu sangue. Sempre estamos construindo e seria bom que construíssemos um mundo de liberdades, para onde as humanidades masculinas e femininas um dia voltem-se como possivelmente amorosas. Fazer arte é um a tarefa dificílima, principalmente quando se estiver pressionando pelo descrédito, pelo medo, pela falsa sensibilidade, é preciso ser além das humanidades locais, assim entendo todo o trabalho de Luzia, alguém que esteve aqui no teatro do Boi construindo uma história, que inseriu e depois desertou para além do município, mas sempre começando de muitas maneiras, como se nunca tivesse partido. Veio agora debelar o carrego. O Jone, meus Deus! Absorto em sua tensão passou por cima do fio da tomada, tivemos uma pausa e depois tudo prosseguiu do jeito que foi. Voltando ao assunto Luzia Amélia, que adquiriu conhecimento suficiente, superior capaz de fazer forte a qualquer crítica. E humilde para saber ir buscar onde estar acontecendo algo, a informação necessária à sua criação (o que digo é apenas luma, energia, talvez logo volte a terra). Isto que não estão vendo, que Mercado Central vê e faz. Faz o cotidiano daquelas barraquinhas, a levar e a trazer frutas, dos casos de vendas de corpos dos homossexualismos femininos e masculinos, abertamente rachados entre a barafunda de informação ou desinformação a fazer daquele mundo um universo-lugar de forças que se arrastam para continuar vida, e vivem no bom e melhor ou todas as formas de se fazer gente ou bicho gente, mais, de transformar em metáforas aquilo tudo que é o centro de Teresina e do todos os mercados brasileiros. A força empregada pelos bailarinos de não deixarem que digam por ai que eles não têm técnica, que o pensamento-ação não é atual, espero que resistam, espero que este grupo não seja obrigado a recomeçar, por forças dos “nãos”. Luz! Existe uma força luminosa, chegaram aqui, são mais que seres humanos, poderão ir mais além. Luz! Deus sol ama as horas de carniça. Esta práxis de não ser vítima do preconceito local e nacional, na escolha do perfil físico dos bailarinos, apenas um de cútis quase 100% negra, é certeza de que lá por fora ainda não podemos de modo algum deixar de lado o provinciano nacional e local que nos obrigam a usar seus modelos e não somente os nossos. Vejo um grupo, disposto a pagar o preço. Deixados de lado, por discípulos e outros tantos, resistindo… Iguais a todos os camelôs, barraqueiros, gordas vendedoras de coisas gordurosas… Gente da CODIPI, do São Joaquim lá no Mercado Central.

 

* Ator e diretor do Teatro do Boi

Artigo: Mercados Culturais

19 abr

por Maneco Nascimento*

O Teatro Municipal João Paulo II, com a temporada aberta de ocupação de pautas à comunidade, recebeu no último final de semana, dias 17 e 18 de abril de 2009, o Espetáculo MERCADO CENTRAL, projetado pela CIA. Luzia Amélia para as cênicas da Cidade. Resultado com registro de estréia há alguns anos e com carreira eficiente de apresentações, continua com o mesmo ímpeto do início. É rico de cores prospectadas da cultura popular em franca apreensão pela cultura de massa, mas com o rigor de costura cênica que só a boa sensibilidade artística pode reunir em espetáculo que é forte nos traços dramatúrgicos; na prática da dança com elementos de sincronia coletiva; em corpos que espelham o texto coreografado e na pesquisa tanto musical equilibrada ao propósito temático como na construída segunda pele dos atores dançarinos para efeitos impactantes. A artista plástica L. Amélia parece dosar com muito cuidado o cotidiano ribeirinho das feiras, os logradouros de vida pregoeira de qualquer mercado ao vender estéticas e dinâmicas matizadas da mímesis do comum social. A cultura popular salta aos olhos do público pelas veias dos intérpretes, contemporaneizada pelos átomos da cultura de massa, do kitsche e do mais velho exercício de reatualização social, a sobrevivência do homem(genérico) às memórias coletivas.

É de uma leveza fortemente concentrada, de uma beleza plasticamente equilibrada e de uma energia lingüística corporal presente nos melhores mercados culturais da dança contemporânea para gregos, muçulmanos e oriente maior ver.(…)

* ator e diretor do Teatro Municipal João Paulo II