…a idéia de contaminação contém um sentido não diretivo nem autoral, mas constante e inevitável: refere-se ao caráter residual da interatividade processada entre os múltiplos agentes. Um relacionamento gerador de efeitos não-planejados que se propagam ao longo do tempo. (Fabiana BRITTO)
Este foi o pensamento que articulou todas as ações do Fórum Nacional 1 Minuto Para a Dança que aconteceu de 29 de Abril a 29 de Maio. O Fórum extrapolou as expectativas, pois contaminou pessoas que mesmo não sendo da área de dança, como a Filosofia, o teatro, pedagogia, fisioterapia, música, se sentiram atraídos a trocar informações por meio do movimento, de debates, interrogações, reflexões, conexões.
Na primeira etapa, reservada especialmente para se discutir a Urgência da Graduação em Dança no Piauí, fomos estimulados por Cristine Greiner a refletir sobre questões curriculares de um curso que nos abrirá caminho nunca dantes percorrido: o da formação acadêmica. Constatamos que estamos há anos luz do resto do Brasil e o nosso atraso é com toda certeza, falta de investimento. É preciso que o espaço da dança seja ocupado de forma efetiva. Até quando, apenas emolduraremos eventos? Por vezes, o espaço onde dançamos não consegue abarcar as nossas necessidades, solapando os nossos interesses coletivos.

Cristine Greiner na mesa a Urgência da Graduação em Dança no Piauí
Outra questão extremamente relevante: compreender a atividade de dança como área de conhecimento e não somente uma área interdisciplinar, a dança é também espaço para conhecer, não somente o corpo, o mundo. Isso proporciona pensar autonomia da área de dança, que, radicalmente desligada da Educação Física, por estar no campo das artes, começa a trilhar, com apenas trinta cursos de dança espalhados em universidades deste imenso Brasil, o seu próprio caminho. Sobre as questões que Cristine Greiner nos apresentou, ficaram espaços a serem preenchidos, respostas a serem encontradas, que somente nós, fazedores de uma dança piauiense teremos que tentar encontrar.
Lenira Rengel trouxe para a segunda etapa a possibilidade de vivenciar termos ainda desconhecidos como corponectividade e o entendimento do que seja mentecorpo, apresentados juntos. Formulação estruturada a partir de pesquisas e estudos das ciências cognitivas, trazendo novos entendimentos para processos artísticos-pedagógicos, repelindo o dualismo cartesiano que reparte o nosso ser e conseqüentemente as nossas idéias acerca de mundo e de dança. A dança oferecida por Lenira, fortemente influenciada pelo pensamento de Rudolf Von Laban, pai da dança criativa, propôs trocas entre teorias e práticas de dança com a educação, semiótica, biologia evolucionista e estudos da cultura.

Lenira Rengel, no workshop Dança Criativa
Em oficinas, ministradas por Lenira, todos tiveram oportunidades de experimentar o extraordinário universo do movimento. Crianças dançaram livremente, tendo seus gestos valorizados, mesmo diferentes, estavam inseridas no processo de construção de novo pensamento, uma atitude contemporânea em educação. Por seguinte, a palestra Laban, Corponectividade e Educação Contemporânea conectou professores de diferentes áreas, atores, bailarinos e arte-educadores a novos entendimentos em educação. Lenira Rengel ainda lançou três livros importantíssimos para a área de dança e arte educação. Quais danças queremos ensinar? Quais danças queremos aprender? Mais respostas para encontrar.
Uma ação que não coube em si mesmo, não coube nem mesmo em Teresina. Repartiu-se em outras tantas. Ações extras que se espalharam. Em Teresina, o workshop Dança , Corpo Capoeira, com Grupo Córdão de Ouro. O espetáculo Sangue, com a cia. Luzia Amélia. Ações que ganharam a estrada, percorrendo a caatinga atrás de escrituras, imagens, corpos primevos na Serra da Capivara. Novas pontes de diálogo. Novos olhares no desértico campo da pesquisa em dança. É possivel, pois a construção de um sonho no insólito Sertão do Piauí. A FUMDHAM, pelas mãos de duas cientistas, nos abrem as veredas.

Workshop Dança, Corpo Capoeira, com Grupo Córdão de Ouro
Por fim, a terceira e última etapa do Fórum. Residência Artística com Gilsamara Moura e a palestra Redes Colaborativas em Dança como Ação Política proferida por Lúcia Matos. Na Residência, foram dias intensos de descobertas, encontros, entusiasmo, pesquisas de movimentos. Grupos distintos se encontravam para dançar, corpos híbridos, a procura de novas conexões, em território universitário, desde já demarcamos o espaço que queremos ocupar. Gil nos apontou vários caminhos para a dramaturgia de corpos que se permitiam dançar, pôde-se trabalhar várias formas de improvisar, de repetir, de valorizar o que cada um tinha para oferecer. Ao final da residência, deu-se contaminações, trocas, intercâmbios, outras conexões mais. O ponto importantíssimo nesta residência foi à presença de pessoas de cidades distantes como Floriano, Água Branca e Parnaíba. Assim como bailarinos que participam de grupos da periferia da cidade que não estão no circuito central. A presença desses bailarinos foi para a organização do Fórum, a confirmação do alcance da proposta inicial, contaminar em todos os sentidos, direções, artérias.

Residência com Gilsamara Moura
Lúcia Matos tratou de nos estimular sobre a necessidade de atuar em rede, entre nós de Teresina, do Piauí, do Brasil, do mundo. Mostrou um panorama das ações da área no país. As mudanças que a dança conseguiu a partir da organização de classe. Colocou questões importantes sobre o Plano Nacional da Dança que faz parte do Plano Nacional de Cultura, o qual tem como objetivo atender dispositivos legais, presentes na Constituição Federal e que “visa promover o planejamento e implantação de políticas culturais para a proteção e promoção da diversidade cultural brasileira” ,proposta esta que está fundamentada nos pontos firmados na Conferência Nacional de Cultura e nos trabalhos realizados de forma absolutamente coletiva pela Câmara Setorial de Dança. Diante do exposto, Marcelo Evelim, Gilsamara Moura e Sidh Ribeiro, expuseram suas experiências à frente de seus trabalhos. Momento singular na construção de diálogos com a dança piauiense.

Lúcia Matos na palestra Redes Colaborativas
Por fim, debates ainda inseguros, pela falta de práticas de ouvir e ser ouvido, de respeitar e buscar entender o trabalho do outro.
Conseguimos com a mediação esperançosa de Zozilena Fróz(UFPI), dar continuidade a debates sobre políticas públicas específicas para dança, a criação de curso de graduação e tantos outros problemas próprios de nossa área.

A pontual presença de bailarinos de Parnaíba/PI
O Fórum Nacional 1 Minuto Para a Dança foi espaço para encontros que tinham sido adiados por bastante tempo entre danças, indivíduos e seus conhecimentos. Entre pessoas que trilham caminhos diferentes mais que, no entanto, labutam em uma área onde é possível crescimento, diálogo. A comunicação é a forma que o homem encontrou para sobreviver, é uma estratégia de sobrevivência para a dança a comunicação entre aqueles que a fazem. Então, acreditamos que atingimos o nosso objetivo principal. Conseguimos nos comunicar. Todos deram o seu primeiro passo.

Debate: Luzia Amélia, Gil Moura, Marcelo Evelin e Sidh Ribeiro
Encaminhamos um segundo encontro para darmos continuidade a diálogos que precisam acontecer para desenvolvimento efetivo da área. Acreditamos que a hora é esta. É mister o entendimento da necessidade de uma espécie de protocooperação. Termo pinçado, aqui, da biologia (ora, pois), pela qual dá-se uma relação cooperativista, onde duas espécies são beneficiadas, no entanto, uma espécie consegue sobreviver na ausência da outra. Essa coisa de sobreviver sem o outro e, no entanto, manter relação talvez seja o código que faltava para entender que não precisamos ter as mesmas idéias para manter diálogos, afinal é preciso coragem para dialogar, para Paulo Freire “o diálogo é a base para toda e qualquer revolução”. Vamos, então, à nossa!
por Luzia Amélia